Jorge Uequed e Airton Soares

Jorge Uequed: “A repressão era problema dos militares, nossa ordem era agir”

Rede Sustentabilidade 1 de abril de 2014

A via parlamentar foi o caminho escolhido pelo advogado gaúcho Jorge Uequed para combater o regime.

Participante do movimento estudantil e independente de grupos políticos, optou por ingressar no MDB quando o regime militar decidiu que haveria apenas dois partidos. Vereador em Canoas, se elegeu para o Câmara dos Deputados em 1974, onde ficou por vinte anos.

Mesmo sob cerco da censura, a ordem era atuar e resistir à ditadura, conta Uequed: “Mesmo com censura, a gente fala. A gente fala para a nação. Nosso interesse era agir.”

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

(Na foto, Jorge Uequed, à esquerda, conversa com o deputado Airton Soares na Câmara dos Deputados)

* * *

Canoas

Comecei a militância como fundador e presidente do grêmio estudantil da minha escola. Fui presidente da União Canoense de Estudantes e secretário-geral da União Gaúcha de Estudantes.

Com o golpe, meu grupo político se dividiu em duas partes, um foi para a luta armada e o outro foi para a luta parlamentar. Levamos pau durante muito tempo dos que foram para a luta armada, até que na Anistia eles reconheceram nosso papel.

Em 1968, eu era coordenador da campanha do candidato do prefeito do MDB que ganhou e foi cassado. Nosso candidato a prefeito ganhou de todos os candidatos da Arena [Aliança Renovadora Nacional, partido político que apoiava o regime militar], que eram três. A dois dias da posse a cidade foi decretada área de segurança nacional e o prefeito impedido de assumir. Eu era o coordenador da campanha.

Fui eleito primeiro suplente. Três meses depois morreu um vereador, e eu assumi. Quando fui tomar posse, a Câmara Municipal foi cercada a pedido do interventor, Hugo Lagranha. Meu discurso era muito duro.
O partido vinha de uma derrota muito grande, eu fui convidado pelo Pedro Simon [para se candidatar a deputado] e ajudar a eleição com os 10 mil votos de Canoas. Acabei fazendo 36 mil votos porque eu tinha um discurso muito duro e eu usava todos os espaços de televisão. Naquele tempo se falava meia hora, ao vivo e em cadeia de televisão. Os outros não queriam falar por causa do medo da repressão e me davam o horário.

Brasília

Fui eleito deputado federal em 1974 e depois reeleito em 1978, em 1982, em 1986 e 1990, tive cinco mandatos, entre eles o da Constituinte.

Primeiro, tinha censura de todos os pronunciamentos, não saía nada na imprensa. Nossa tática era que, mesmo com censura, a gente fala. A gente fala para a nação. A gente mandava os discursos, organizava a sociedade, preparava a resistência ao regime.

Não éramos apenas contra o governo, éramos contra o regime. Não tínhamos recursos, não tínhamos prefeituras nem vereadores, o MDB era muito pequeno. A gente se elegia na base das propostas, do discurso. Botava um caixote nas principais ruas da região metropolitana, pegava um megafone e ia falando. Era tão dura a perseguição que as pessoas entregavam nossa propaganda escondidinha.

O deputado Jorge Uequed durante discurso na Câmara dos Deputados

O deputado Jorge Uequed durante discurso na Câmara dos Deputados

Na Câmara fui presidente da pré -CPI da Tortura. Eu e o Ailton Soares, ele era o relator, em 1979. Visitamos os presos políticos e os torturados, levamos famílias dos presos para o MDB, que decidiu pela CPI. Aí o [Nelson] Marchezan, presidente da Câmara na época, vetou.

Um dado curioso, que eu sempre ressalto e ficou marcado no Congresso, foi que eu nunca saudei os senadores biônicos [indicados pelo governo]. Durante oito anos, durante as sessões do Congresso e da Câmara, eu iniciava o discurso assim “senhor presidente, senhores deputados, senhores senadores eleitos pelo povo e demais funcionários da Casa”. Os biônicos ficavam loucos, pois eu não os considerava senadores, eram funcionários. Eles protestavam, diziam que era falta de decoro.

Na Constituinte fui autor da proposta da anistia ampla, geral e irrestrita. [A subemenda dava anistia a militares perseguidos que não foram beneficiados com a Lei da Anistia, de 1979, e acabou sendo rejeitada].
Nós nunca nos preocupamos com a falta de liberdade, era problema deles. Nosso interesse era agir. Durante o regime, os nossos –Alencar Furtado, Nadyr Rossetti, Amaury Muller e outras lideranças que foram cassadas pelo exercício do mandato– estavam exercendo o espírito do nosso grupo dos autênticos. Não interessa o que a repressão vai fazer, importa o que nós temos que fazer. Temos que resistir, protestar, contestar, apresentar lei, projeto de lei, organizar a sociedade.

Legado

O golpe foi uma reação, em primeiro lugar, às transformações que a sociedade vinha fazendo. Foi uma reação a uma proposta de reforma agrária e de participação popular; a intenção de um grupo de se manter no poder, porque as forças populares vinham crescendo; e um clima internacional golpista da época. Era o mesmo grupo que em 54 tentou derrubar o Getúlio, que tentou derrubar Juscelino, que se inconformou com a ascensão do João Goulart.

Esses vinte anos foram um retrocesso na vida brasileira. Um retrocesso na criação de lideranças, de participação política, e até de organização do Estado. Implantada a democracia, com a Constituição de 88, nós estamos em um processo de adaptação. Os resquícios do regime militar são muito grandes. Temos ainda um sistema policial e de Polícia Militar para quem o adversário interno é inimigo.

O Estado não está preparado para conviver com a sociedade democrática. O Judiciário ainda precisa de um longo processo para se democratizar. A qualificação dos serviços públicos ficou entre o temor da repressão da ditadura e a insegurança dos avanços democráticos.