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Primeiramente, o “Fora Temer” é um mero slogan?

Rafael Poço 9 de março de 2017

Existe uma possibilidade real de retirar o Temer da Presidência, fazendo justiça duplamente: porque ele nunca deveria ter sido eleito e estado na linha sucessória e porque precisamos saber se de fato estamos entrando numa outra fase no Estado de Direito no Brasil, em que todos estão submetidos à lei.

A cassação da chapa é a possibilidade real de conseguir dar resposta aos discursos de quase todo o espectro político: daqueles cujo enfoque é “combater a corrupção” àqueles que gritam “Fora Temer.” Embora ainda seja preciso a comprovação perante o formalismo da Justiça, já não há dúvida sobre a existência dos esquemas ilegais para financiar a campanha.

Mas você não viu – e não verá – uma grande manifestação, mídia independente, movimentos e organizações sociais mobilizados em torno desta causa. E sabe por que? Porque a cassação da chapa incomoda à “elite” política de esquerda e à elite política de direita, dos progressistas aos conservadores, dos lulistas aos temeristas, se é que existe isso.

De um lado, tem gente satisfeita pelo simples fato de Temer ter retirado o PT da presidência e considera a sua corrupção um mal menor diante do “favor”; tem aqueles que acham que mais vale socorrer a economia no curto prazo do que transitar para uma fase civilizatória melhor, que incorpore a ética e a justiça como elementos da democracia. E tem, claro, aqueles que estão se beneficiando de Temer na presidência. Vale lembrar: entre estas pessoas, estão grande parte daqueles cuja justificativa para odiar o PT era a corrupção.

Por outro lado, a cassação da chapa implicaria em reconhecer que a campanha de Dilma usou dinheiro originado de corrupção, degradação e uso indevido de instituições públicas e patrimonialismo. Mas há toda uma “elite” partidária que seria prejudicada caso isso ocorresse e há também um universo de pessoas que ainda tem ou o coração ou o rabo presos e que não consegue sair da poderosa narrativa de que “aceitar a acusação à esquerda significa ser de direta” (e ser considerado “de direita” pra eles seria a pior desonra; pior até do que ser complacente com a impunidade e o mau uso de bens públicos).

É importante olhar para este fenômeno de omissão como forma de entender quando um “Fora Temer” é só um engodo e um mero slogan identitário e quando o “combate à corrupção” é uma cortina de fumaça pra uma implicância partidária ou um ressentimento “de classe”.

Fique atento às narrativas e aos discursos predominantes. Talvez tenha um motivo pra terem predominado.